sábado, 20 de novembro de 2010

Valsa Lá em sentido pleno

Tem as mãos no piano com os dedos compridos a Tocar Chopin. Ainda na noite passada tocou-me uma valsa. Levantou-se erguido com o seu fato de pinguim o Maestro colocou as mãos , bem postas, bem posicionadas, retirou da sua sonata e eu não estava habituada a estas coisas. Subi as meias de Lycra, pretas, o Maestro ajeitou o corpete suavemente. Deu dois dedos e que profundidade. Quando estava a perceber a melodia deu um solavanco e meteu mal a segunda nota . Ficou atrapalhado e tirou do saxofone. Desci agora as meias, o que restava delas, tirei os sapatos, lançados fora num tal ímpeto de vulcão me agarrou como a uma tecla. Descia com os lábios os magnifícos acordes «Lá» apanhando-me o preto e o branco das cuecas em xadrez compradas num centro qualquer; revirou a cabeça, tocava a melodia e as mãos: humm…uma magnitude digna de Mestre. Dizia-me que era a «Musa» e de Musas anda o mundo repleto. Já sem o xadrez da Valisérie, que me custou os olhos da cara. Prelúdios que eu adivinhava quando o Maestro colocava a plateia em sentido e elas ficavam  direitinhas, pleno, a espera da contemplação daqueles dedos, num voo de campino. «Anda cá, agora ficas aqui» dizia-lhe eu. Mas para desconsolo da plateia ansiosa teve o Maestro que parar a meio quando tudo estava a ficar no ponto. É o que dá as valsas e as sonatas: quando julgamos que elas estão a concluir o que queremos ficam a meio do trabalho.

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