Onde há fumo , há foguinho. Há homens que se intimidam comigo, outros que lhes sobe pelas vértebras um nervoso miudinho que lhes paralisa a epiglote e nem uma,nem duas, digo Senhores, uma sílaba sequer que o ignóbil inergúme consiga dizer. Depois temos os casados. Senhoras, tapem os ouvidos. Esses desgraçados.O piano ao comprido. O indicador a correr , devagar devagarinho , o indicador a subir , nota por nota, e os olhos do casado , imóveis, petrificados. Agora , toco eu , digo-lhe. Esses , paralisam. Há muito que não vão a um bom concerto, que não comem gambas. Esqueceram-se do do interesse quando uma mulher tem a ´cabecinha´ do camarão na boca , já bem molhada por ele, e deliciada. O frisante a correr-me as artérias. Há fuminho, há foguinho e a sardinha na brasa. A virar-se, de um lado ao outro, a dançar feita uma danada.
Aqui a Miss, hoje está assim. Desvairada, louca de si, não há missa que lhe valha e muitas já foram as Avés de joelhos e as contas já nem vê-las .
O assador, com a mulher fora de casa « vou-te saltar para a espinha » cai o frisante . Bela Gazela , eu lhe diga . A piscina a tremer com um pequeno gemido do vento, a sardinha a ficar sem escamas, a ser comida de todas as maneiras e feitio - atrás, de lado, à frente - com os tomates a fazerem o requinte e os milagres do azeite a uniformizarem a frutinha. Uma boa salada, prato completo. Foi à hora de almoço que a brincadeira acabou.
A mulher do assador correu atrás do homem a pedir contas da sardinha comida enquanto a desgraçada criatura saltava a vedação. Onde há fumo, há foguinho. Ela ainda procurou pela sardinha, mas nem rasto dela . Essa , já há muito que tinha sido comida.
Seis de dezembro, dia do sexo. O país para , eu paro. Tiro os invólucros da mesa de cabeceira e o Gonçalinho, desvairado a levantar.me as saias, atrevido. O cheiro deles, uns com sabor a morango, outros a banana, bato com a cabeça - na cozinha, na sala, no quadro da Edith, na casa de banho, no quarto - o soutien num canto , as cuecas no outro, as dele, nem sei... Digamos que ele sabe potar tão bem que eu nem dou pela fruta. As mãos espalmadas na parede, os lábios a tocarem a cal branca, caiada, Só sinto o cheiro a casca , aquelas mãos a atravessarem-me o busto descoberto. O leitinho do coqueiro em cima das costas « faz bem a pele» , eu e ele, eu e a banana e os morangos. É Professor de Português, o Gonçalinho:
- anda cá que vamos trocar umas metástesses
e lingua e mais língua que eu adoro o Português. Aumenta a sonorização, entram vírgulas e mais vírgulas e ditongos crescentes, ditongos decrescentes
- sequência vocálica
diz-me . Diz-me onde... ?onde , aí - nos gémeos - e começa a aula dos ditongos orais. E um monossílabo a gemer «só...tu...» eu, e apenas eu , toda eu. Boa aluna em letras, o meu corpinho de i, as minhas formas de V, o cheiro a morango, ao lado, o invólucro rosa, a Edith, no gramafone, rien rien , tiro a preposição e o artigo para fora,
- para bom entendor meia palavra basta
diz-me, o menino português,« passemos ao advérbio Detrás.
«Que perverso o desgraçado» comenta a Jú, sentada com rolos na cabeça, no salão de corte e costura das Amoreiras, enquanto me tira a cera quente das perninhas e um descuido
- Ai...
Que espétaculo! Assusto-me com o gato , ao lado do papagaio de plástico e mais qualquer coisa eléctrica,que salta num arrepio enquanto a lição decorre. Rodo devagar , tiro as mãos da parede caiada, dou uma volta e o indolente: a mover os lábios, no presente, « vem» ; também eu gosto e digo-lhe, no melhor modo imperativo :
- Vem tu
Para bom entendor meia palavra basta . Por vezes, basta apenas uma letra e sou como um suspiro no final do i, um H encontrado na cama, a soletrar-lhe baixinho as letras do alfabeto até o sujeito ficar recto, até as mãos suarem , de tanto escrivinhar, ora na escravaninha, ora na mesa da cozinha, ora na sala, no tapete , para não perder pitada da matéria. E finalmente chegamos ao complemento directo. Os pronomes. A desempenharem a sua maravilhosa função « o..a....a....» eu borbulhar como uma Frise, a ser o palato nele, a entregar-me na maravilhosa função adverbial, afinal , diz-me, o «amor é verbo» , cala-te! Continua , continua agora com os átonos
- me-te ,
o que teríamos , no verbo dar:
- o Gonçalinho, meteu-o na Mia
Metia..metia as lições, as vírgulas, as consoantes, se o gato Roberto, não me saltasse para cima da criatura , a envolver-lhe as unhas nas costas e este
- ai, ai ai ai
a desferir golpes mortíferos, dignos de um senhor de Xangai, que agarra a criatura como a uma pega e o sacode porta fora. É que, as palavras precissam de ter sabor na alma, e estas, se não tiverem palado a morango, a banana, o tigre bem pode rugir que não terá a sua presa deitadinha a sua espera.